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A luta feminista deve ser interseccional

A luta feminista deve ser interseccional

Feminismo é uma palavra que ainda assusta algumas pessoas, seja por não compreenderem o que esse movimento de mulheres representa social e politicamente ou por não consentirem a mudança estrutural buscada, que necessariamente implica a derrocada dos privilégios conferidos pela sociedade aos homens.

Na maioria das sociedades são reproduzidas diferenciações culturais aplicáveis aos homens e mulheres[1], conferindo padrões de comportamento que reforçam desigualdades e subordinam as mulheres a um lugar social de dependência da autoridade masculina, o que se reflete através dos alarmantes índices de violência doméstica, na baixa representatividade das mulheres no sistema político e na divisão sexual do trabalho.

Em todos esses fatores que comprovam a existência de uma dominação masculina[2] nas relações sociais, a situação da mulher negra distingue-se das mulheres não-negras na medida em que, além do machismo, também estão vulneráveis aos abismos socioeconômicos impostos pelo racismo.

O movimento feminista brasileiro não pode recair no erro reforçado pela história contada pelos brancos, de que nosso país vivencia uma democracia racial e que a miscigenação da população é um sinal de amor entre pessoas de diferentes raças.
Muito pelo contrário, a celebrada miscigenação utilizada por alguns para tentar mascarar o próprio racismo, foi fruto da reiterada prática de estupros contra mulheres negras escravizadas, violência sexual utilizada pelos senhores de engenho como arma de dominação, assim como os açoites, trabalhos forçados e toda forma de exploração[3].

A violência sexual praticada contra mulheres negras, hoje resumida por alguns na palavra “miscigenação”, foi uma característica marcante da escravidão negra legalizada no Brasil por 350 anos, cujo fim formal se deu há apenas 129 anos.

Os reflexos de um país fundado sobre uma base racista e patriarcal são sentidos pelas mulheres negras de forma muito acentuada na atualidade. A hipersexualização, o tratamento objetificado dado pela mídia, o reforço de estereótipos tidos como elogios: quem nunca ouviu a frase “mulata tipo exportação” para se referir a uma mulher negra com um belo corpo?

Além disso, o racismo também atua fortemente na divisão sexual do trabalho, destinando às mulheres negras os lugares mais baixos na pirâmide social. Segundo estudo do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), as mulheres pretas e pardas têm “a maior taxa de desocupação, estão submetidas as condições mais precárias de trabalho, com baixos salários e sem carteira assinada”[4], ocupam o maior contingente de trabalhadoras domésticas, porém o número de domésticas com carteira assinada é uma maioria branca.

Tudo isso denota a necessidade de uma luta feminista que esteja atenta a todas as formas de opressão que atingem as mulheres e faça ecoar a voz não apenas das mulheres brancas, mas das mulheres negras, indígenas, quilombolas, transexuais, lésbicas, as quais também buscam a sua emancipação das correntes da dominação masculina.

REFERÊNCIAS

[1] MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Feminismo e política: uma introdução. 1.ed. São Paulo: Boitempo, 2014.

[2] BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010. Tradução: Maria Helena Kühner. Disponível em: . Acesso em: 31 ago. 2015.

[3] DAVIS, Angela. Mulheres, Raça e Classe. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2016. Tradução: Heci Regina Candiani.

[4] FOLHA DE SÃO PAULO. Brasileira Negra ganha menos de 40% que brasileiro branco, aponta estudo. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/03/1748790-brasileira-negra-ganha-menos-de-40-que-brasileiro-branco-aponta-estudo.shtml>. Acesso em 31 ago. 2017.