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Michel e Cármen: caricatura do golpe

Michel e Cármen: caricatura do golpe

Em um Estado Democrático de Direito, uma reunião entre o Chefe do Poder Executivo e a Presidenta da Suprema Corte para discutir temas de interesse nacional poderia ser considerada apenas um símbolo de diálogo entre poderes instituídos, de estabilidade institucional, de união de esforços em defesa de uma agenda positiva para a nação.

No entanto, quando o Chefe do Poder Executivo assume o poder através de um golpe de Estado, é personagem de gravações que comprovam seu envolvimento em gravíssimos crimes e comandante de um programa de governo desconstituinte e antinacional, uma reunião que poderia ser considerada comum assume outro caráter, especialmente se atentarmos para o local escolhido para o encontro e para o seu aspecto informal.

A reunião ocorreu dias depois de o Ministro Luís Roberto Barroso, do STF, autorizar a quebra do sigilo bancário de Michel Temer. Mas segundo o ilibado Presidente da República, a quebra do sigilo não foi tema da conversa com Cármen Lúcia.

Enquanto Chefes de Estado de diversas nações do planeta evitam se encontrar com Michel Temer, dada a ilegitimidade do governo brasileiro e as denúncias que abalam a reputação do meliante, Cármen Lúcia recebe Temer no fim de semana, informalmente, em sua residência no Lago Sul de Brasília.

Impossível não recordar da conversa entre Sérgio Machado e Romero Jucá, sugestiva de um grande acordo nacional, incluído o STF. No momento em que Lula é perseguido e condenado sem crime e sem provas, a fotografia do encontro entre Michel Temer e Cármen Lúcia não poderia ter outra legenda: caricatura do golpe.

Silvio Santos, Michel Temer e a mediocridade da burguesia brasileira

Silvio Santos, Michel Temer e a mediocridade da burguesia brasileira

No dia 28/01, o programa do Senor Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos, transmutou-se em instrumento de agitação e propaganda do governo ilegítimo de Michel Temer, que foi convidado para defender, ao lado do proprietário da rede de televisão SBT, a reforma da previdência.

Após utilizar o seu “revólver da fortuna” para disparar cédulas de R$ 10 e R$ 50 em direção à plateia, paga para aplaudir toda e qualquer asneira verbalizada pelo apresentador e para prestigiar todo e qualquer meliante convidado ao programa, Silvio Santos anunciou a presença de Michel Temer. Juntos, afirmaram aos telespectadores que a reforma previdenciária é necessária para garantir o futuro da aposentadoria e que as novas regras propostas afetam apenas aqueles que ganham mais, poupando os mais pobres.

Silvio Santos encerrou a entrevista vomitando as seguintes palavras:

– Se não aprovarmos a reforma da previdência, nós, daqui a dois, três, quatro anos, nós não vamos ter dinheiro para pagar aos aposentados. Essa é a verdade!

Já Michel Temer se despediu do programa à moda Rocha Loures. Retirou uma cédula de R$ 50 do bolso do paletó, com a qual presenteou Silvio Santos – sogro do deputado Fábio Faria, que por sua vez é filho do governador do Rio Grande Norte e vice-presidente do PSD, Robinson Faria.

O episódio é revelador da mediocridade da burguesia brasileira e da atual conjuntura nacional.

O Senor Abravanel construiu sua fortuna e popularidade transformando a pobreza em espetáculo. “Quem quer dinheiro?” Pergunta Silvio Santos exaustivamente, enquanto a plateia disputa seus donativos.

Já Michel Temer chegou à Presidência da República através de um golpe. Não se comporta como um Chefe de Estado, mas sim como um meliante qualquer. Ao presentear Silvio Santos com uma nota de R$ 50 buscou conquistar a simpatia do público do programa, mas terminou por revelar mais uma vez o modus operandi do governo ilegítimo.

“Quem quer dinheiro?” Pergunta Michel Temer exaustivamente aos deputados e senadores. E assim se fez o golpe, e assim a Emenda Constitucional 95/16 foi aprovada, e assim os direitos dos trabalhadores inscritos na CLT foram eliminados. “Quem quer dinheiro?” Pergunta Michel Temer aos proprietários dos principais veículos de mídia do país, ansiosos por conquistarem a verba de publicidade do governo e por verem aprovadas as reformas neoliberais. “Quem quer dinheiro?” Pergunta Michel Temer ao Poder Judiciário, que se torna cada vez mais garantista dos seus próprios privilégios e dos privilégios da burguesia nativa, enquanto testemunha ativamente o sepultamento da Constituição de 1988 e da democracia, afinal, está em vigor um “grande acordo nacional” (Sérgio Machado), “com o Supremo, com tudo” (Romero Jucá).

Não podemos nutrir ilusões. A burguesia só vai deixar de ser medíocre e de tratar os trabalhadores como lixo orgânico quando os trabalhadores impuserem à burguesia uma derrota estratégica, que conduza a classe trabalhadora não apenas ao governo, mas também ao poder. Os partidos que tenham verdadeira pretensão de mudar o curso da história necessitam reorientar sua estratégia e retomar a via revolucionária, o que significa abandonar a política de conciliação de classes e apostar cada vez mais na luta social, na educação popular, na formação política, na agitação e propaganda e na organização popular.

A estratégia socialista, no entanto, não pode prescindir da leitura concreta da realidade concreta, o que nos permite entender o quanto é importante, na atual conjuntura brasileira, impedir que a burguesia interdite a maior liderança popular do campo democrático e popular: Luiz Inácio Lula da Silva.

A interdição de Lula é a próxima fase de um golpe que sequestrou a soberania do voto popular, impôs uma agenda de retrocessos econômicos e sociais à classe trabalhadora e que pretende, desavergonhadamente, eliminar qualquer possibilidade de vitória eleitoral de representantes dos trabalhadores, por mais socialdemocratas ou nacionalistas que possam vir a ser, descartando para tanto a legalidade.

O avanço do golpe com a interdição de Lula significaria, muito provavelmente, o início de um longo processo de hegemonia das classes dominantes. Hegemonia que pode vir a ser exercida inclusive com a mudança do sistema político, com o recrudescimento da criminalização dos movimentos populares, com a cassação dos registros de partidos de esquerda e com a censura ideológica, o que dificultaria ainda mais qualquer tentativa de reação popular.

Enquanto a burguesia tenta definir os destinos do país em gabinetes e tribunais de exceção, temos que ter cada vez mais convicção de que o nosso lugar é nas marchas, paralisações, greves e ocupações, assim como nos centros de formação e nas redes de educação popular. Sempre é hora de sonhar, mas se faz imperativo organizar o sonho.

 

 

Todo camburão e todo presídio têm um pouco de navio negreiro

Todo camburão e todo presídio têm um pouco de navio negreiro

59.080 brasileiros foram assassinados durante o ano de 2015. 3.320 homicídios foram identificados como sendo derivados de intervenções policiais. De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Mais da metade das vítimas de homicídio são jovens. Brasil ocupa o sétimo lugar no ranking dos países que mais matam jovens. Mais de 318 mil jovens foram assassinados no Brasil entre 2005 e 2015. Desemprego entre jovens brasileiros é o dobro da média mundial. Brasil tem a quarta maior população carcerária do planeta: 654.372 presos, dos quais metade são jovens e mais da metade são negros. 72,13% da população carcerária estudou no máximo até o ensino fundamental. Cerca de 40% dos presos são provisórios, ou seja, ainda não foram condenados e podem vir a ser inocentados ou a cumprir penas alternativas. A maioria das pessoas estão presas por crimes contra o patrimônio (46%) ou em virtude da lei de drogas (28%), que rotineiramente é interpretada de formas distintas, a depender da classe social de quem é flagrado com alguma quantidade de droga ilícita.

Em 2015, ao menos 358 policiais foram assassinados no Brasil. O Ministro da Justiça do governo ilegítimo afirmou que o governo estadual do Rio de Janeiro não controla a Polícia Militar e que o comando da corporação está associado ao crime organizado. 96 PMs são suspeitos de participar de um esquema de cobrança de propina a traficantes que rendia R$ 1 milhão por mês aos militares. Inquérito da Corregedoria da Polícia Militar revela que policiais comandam milícias, vendem armas e drogas para traficantes e praticam estupros. Policiais militares são presos em flagrante escoltando traficantes e drogas. Policiais militares e civis integram grupos de extermínio. Em qualquer recanto do Brasil é possível observar policiais e viaturas fazendo a segurança de estabelecimentos comerciais de modo ilegal.

Os dados e notícias acima aglutinados podem ser encontrados em inúmeras manchetes e/ou matérias jornalísticas, mas infelizmente não sensibilizam uma sociedade ainda atravessada pelo racismo e pela pobrefobia, exceto quando a violência ultrapassa as fronteiras das comunidades pobres e periféricas e se manifesta, assustadora como ela sempre é, nas ilhas de fantasia habitadas por gente fina e elegante. Em apenas 10 anos, o número de jovens assassinados no Brasil ultrapassa o número de civis mortos em decorrência das bombas lançadas pelos Estados Unidos contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, ao término da II Guerra Mundial. No entanto, o extermínio cotidiano de nossos jovens pobres e negros comove menos a sociedade brasileira do que o extermínio materializado em Hiroshima e Nagasaki há 72 anos atrás.
Diante da comoção seletiva e da hipocrisia é preciso afirmar e reafirmar: o Brasil está em guerra! E não se trata de uma guerra contra as drogas, que já se revelou fracassada, mas sim de uma guerra contra pobres e negros, contra as periferias, contra vidas consideradas descartáveis. Como diz a canção popularizada na voz da guerreira Elza Soares, a carne mais barata do mercado é a carne negra. Até quando?!

Até quando a esquerda vai terceirizar para os liberais o debate sobre a legalização das drogas? Até quando vamos deixar que alguns policiais militares de perfil progressista defendam sozinhos a desmilitarização e a reforma das polícias? Até quando vamos fingir que a política de encarceramento em massa e o desumano sistema prisional brasileiro contribuem para a redução da violência? Até quando vamos adiar debates necessários, que dialogam com o cotidiano da maioria da população brasileira?

Olhando para a história recente do nosso país, especialmente para os avanços promovidos pelos governos liderados pelo PT entre 2003 e 2014, constataremos que a redução da pobreza, a geração de emprego e renda, a ampliação dos investimentos em educação, os programas sociais e as ações afirmativas – nos limites de uma política de conciliação de classes – não foram capazes de conter o avanço da violência. Isto porque os direitos humanos não podem ser plenamente efetivados sem o fim da opressão de classe, que fortalece todas as demais formas de opressão.

Assim como as mulheres reivindicam que não há socialismo sem feminismo, integrando o debate de classe e gênero, as negras e os negros reivindicam que não há socialismo sem combate ao racismo, integrando o debate de classe e raça. Se a esquerda pretende de fato disputar os rumos do Brasil e transformar radicalmente a nossa sociedade, terá de enegrecer sua plataforma política. Em um país que realiza eleições de dois em dois anos, deixar qualquer debate para depois das eleições significa nunca fazer o debate.