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Algumas horas de Globo, o que vi? Uma cena de um homem trans conversando com seu pai sobre a aceitação do gênero com o qual se identifica; um drama sobre uma filha que foi abusada sexualmente pelo pai pastor – e referência na comunidade; uma discussão sobre punição de torturadores na época da ditadura civil-militar.

Assistir a isso me faz refletir sobre como a visão simplista de que as massas pensam através da mídia deve ser problematizada. O papel da ideologia numa sociedade capitalista a faz ser um mecanismo complexo e que não se resume à dicotomia verdade e mentira. Dizer que a classe trabalhadora acredita numa mentira quando assiste às produções globais é retirar dela sua capacidade de análise da realidade social.

Se a ideologia consegue ser assimilada e (re)produzida no seio da classe trabalhadora, não é pela dificuldade dela em analisar criticamente o que lhe é colocado 24h por dia, 7 dias por semana. Também não é por repetição, unicamente, que isso acontece, como parecem supor os desavisados.

É, exatamente, no que ela tem de mais real que se sustenta sua capacidade de convencimento.

No primeiro exemplo, observado na novela “A força do querer”, o pai Eugênio (personagem de Dan Stulbach), emocionalmente desgastado com o processo de transição pelo qual passa o filho, faz a seguinte pergunta: “como apagar as memórias da minha filha, da minha princesinha? Eu não tenho memória nenhuma desse rapaz que está à minha frente, que já nasceu grande” e cai em uma crise de choro, enquanto o dito rapaz encontra-se em frente a ele, forte como uma rocha, sem derramar uma lágrima.

Inconscientemente, meu movimento automático foi o de me compadecer da dor do pai. Esse movimento não é apenas uma conseqüência natural de um raciocínio lógico: a narrativa é construída para desencadeá-lo, de forma a retirar o foco da questão primordial do conflito.

O conflito, o qual tem como desencadeamento central a imposição de uma ideologia patriarcal, onde a exigência por um padrão estético que siga o binarismo é condição necessária para a perpetuação de uma sociedade desigual, passa a ter como centro os sentimentos individuais por quais passam os sujeitos envolvidos no processo.

Mas, contraditoriamente, logo agora que Ivan (personagem de Carol Duarte) assumiu sua verdadeira identidade, os sentimentos mais evidenciados são os da família e, obviamente, a solidariedade sentida pelo telespectador se desloca para os pais que sempre foram opressores (impondo certo comportamento contra a vontade do filho), responsáveis em grande parte pela sua dor em todos os momentos anteriores de sua vida.

Aliás, em momento algum da trama aparece a relação da transfobia com o patriarcado. Quando questionei a minha mãe objetivando confirmar essa impressão, explicando a ela no que consiste o patriarcado, ela – que acompanha assiduamente a novela- me disse não ver nenhuma relação.

Vamos ao segundo exemplo. Nesse, não discutirei, literalmente, a suposta proposta de tema “humanizador” do conflito evidenciado no episódio de “Sob Pressão”, como o fiz em relação à novela. De fato, há uma discussão interessante sobre assédio sexual que, de pronto, não consegui identificar incoerência.

O que me desperta para essa série – e já o tinha feito anteriormente quando em algum momento do episódio fez-se uma crítica ao linchamento-, é que, enquanto são eleitos alguns temas para ser aparentemente central em cada episódio (e muitos deles são discussões interessantes e necessárias, inclusive, no nosso projeto de sociedade), uma temática aparentemente tangencial às tramas desenvolvidas permanece a mesma: o desmoronamento do SUS e o heroísmo dos médicos. Na conjuntura política que estamos, não é difícil compreender em (des)favor de quem a ideologia atua nesse caso.

Além disso, algo me chamou atenção. Algo que seria aparentemente um detalhe: o assediador não é um sujeito qualquer: é um pastor. Não é novidade a disputa dentro dos detentores dos principais meios de comunicação. É inegável o que a Globo tem a ganhar com a denúncia dos casos de assédio e estupro dentro da Igreja Evangélica: afinal, é com a Record que a disputa se faz dentro da classe burguesa (isso ficou evidente nas últimas eleições municipais do Rio de Janeiro, cujo apoio surpreendente da Globo a Marcelo Freixo escancarou as divisões da direita*).

Em relação à discussão acerca da punição dos torturadores, também questiono a partir de uma visão mais geral acerca da série. Novamente, reivindicando o momento histórico por qual o país vive, no qual a narrativa construída e disputada por nós, da esquerda, envolve a relação entre o golpe de 2016 e o golpe de 1964, cabe indagar o propósito de uma série cujo título é “Os dias eram assim” e o roteiro gira em torno das torturas atrozes cometidas nos galpões por agentes do Estado na referida época. Em resposta as manifestações de Junho de 2013, a Globo lançou uma nota assumindo seu apoio dado à ditadura civil-militar iniciada em 1964** .

Após esses acontecimentos, a pressão popular exercida pelos movimentos sociais*** , tornou ainda mais insustentável a Globo se esquivar de sua responsabilidade, de forma que restou a ela reconhecer o caráter nefasto do período, postura esta que não é lá um grande diferencial para observar quem está ou não ao lado do povo, já que tal entendimento não é contestado, sequer, por setores mais conservadores da direita brasileira.

O que está em disputa agora é a narrativa do golpe de 2016 e, com essa série, a Globo deixa subentendido o seu lado: é como se estivesse dizendo “pessoal, tudo bem, o golpe de 1964 foi um erro, olha só as atrocidades que cometeram! Mas isso aqui que estamos vivenciando hoje nada tem a ver com essas barbaridades do passado…”.

A ideologia não é parte da mentira. É parte da verdade. Por isso, devemos ter cuidado em nos referenciarmos na Globo, mesmo quando o debate está aparentemente do nosso lado. A ideologia se conforma exatamente na aparência que não nos deixa enxergar a essência. Com isso, não quero dizer que o fato de alguns temas extremamente importantes estarem sendo debatidos em redes de comunicação tão acessíveis à classe trabalhadora não possam ser instrumentalizados por ela.

O fato de o tema ter que ser colocado em pauta por uma emissora que nunca se preocupou em discutir a opressão do nosso povo, é também reflexo do avanço da luta dos movimentos sociais e organizações de esquerda, sobretudo com a disputa das narrativas midiáticas através das redes sociais. A Rede Globo não pode se esquivar de alguns debates; mas não nos enganemos: o que é central continuará negligenciado e silenciado por ela; afinal, estamos em pólos opostos na luta de classes.

Cabe a nós, então, aproveitarmos do espaço, utilizando os exemplos que são mais acessíveis à maior parte do povo, para apontar as contradições e aprofundar o debate, nunca hesitando em afirmar: a Rede Globo nunca foi e nunca vai ser representante dos interesses do povo brasileiro.

*Para saber mais sobre isso: https://www.brasildefato.com.br/2017/05/23/artigo-or-a-direita-esta-dividida-e-hora-de-atacar/
**Nota disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/apoio-editorial-ao-golpe-de-64-foi-um-erro-9771604
***Ver em: https://www.brasildefato.com.br/node/34515/

Giovana Galvao
Advogada, pós-graduanda em educação em gênero e direitos humanos, militante da consulta popular, membro do comitê estadual de assistência a mulheres presas e egressas, membro da pastoral carcerária.
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Giovana Galvao
Advogada, pós-graduanda em educação em gênero e direitos humanos, militante da consulta popular, membro do comitê estadual de assistência a mulheres presas e egressas, membro da pastoral carcerária.
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