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No dia 28/01, o programa do Senor Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos, transmutou-se em instrumento de agitação e propaganda do governo ilegítimo de Michel Temer, que foi convidado para defender, ao lado do proprietário da rede de televisão SBT, a reforma da previdência.

Após utilizar o seu “revólver da fortuna” para disparar cédulas de R$ 10 e R$ 50 em direção à plateia, paga para aplaudir toda e qualquer asneira verbalizada pelo apresentador e para prestigiar todo e qualquer meliante convidado ao programa, Silvio Santos anunciou a presença de Michel Temer. Juntos, afirmaram aos telespectadores que a reforma previdenciária é necessária para garantir o futuro da aposentadoria e que as novas regras propostas afetam apenas aqueles que ganham mais, poupando os mais pobres.

Silvio Santos encerrou a entrevista vomitando as seguintes palavras:

– Se não aprovarmos a reforma da previdência, nós, daqui a dois, três, quatro anos, nós não vamos ter dinheiro para pagar aos aposentados. Essa é a verdade!

Já Michel Temer se despediu do programa à moda Rocha Loures. Retirou uma cédula de R$ 50 do bolso do paletó, com a qual presenteou Silvio Santos – sogro do deputado Fábio Faria, que por sua vez é filho do governador do Rio Grande Norte e vice-presidente do PSD, Robinson Faria.

O episódio é revelador da mediocridade da burguesia brasileira e da atual conjuntura nacional.

O Senor Abravanel construiu sua fortuna e popularidade transformando a pobreza em espetáculo. “Quem quer dinheiro?” Pergunta Silvio Santos exaustivamente, enquanto a plateia disputa seus donativos.

Já Michel Temer chegou à Presidência da República através de um golpe. Não se comporta como um Chefe de Estado, mas sim como um meliante qualquer. Ao presentear Silvio Santos com uma nota de R$ 50 buscou conquistar a simpatia do público do programa, mas terminou por revelar mais uma vez o modus operandi do governo ilegítimo.

“Quem quer dinheiro?” Pergunta Michel Temer exaustivamente aos deputados e senadores. E assim se fez o golpe, e assim a Emenda Constitucional 95/16 foi aprovada, e assim os direitos dos trabalhadores inscritos na CLT foram eliminados. “Quem quer dinheiro?” Pergunta Michel Temer aos proprietários dos principais veículos de mídia do país, ansiosos por conquistarem a verba de publicidade do governo e por verem aprovadas as reformas neoliberais. “Quem quer dinheiro?” Pergunta Michel Temer ao Poder Judiciário, que se torna cada vez mais garantista dos seus próprios privilégios e dos privilégios da burguesia nativa, enquanto testemunha ativamente o sepultamento da Constituição de 1988 e da democracia, afinal, está em vigor um “grande acordo nacional” (Sérgio Machado), “com o Supremo, com tudo” (Romero Jucá).

Não podemos nutrir ilusões. A burguesia só vai deixar de ser medíocre e de tratar os trabalhadores como lixo orgânico quando os trabalhadores impuserem à burguesia uma derrota estratégica, que conduza a classe trabalhadora não apenas ao governo, mas também ao poder. Os partidos que tenham verdadeira pretensão de mudar o curso da história necessitam reorientar sua estratégia e retomar a via revolucionária, o que significa abandonar a política de conciliação de classes e apostar cada vez mais na luta social, na educação popular, na formação política, na agitação e propaganda e na organização popular.

A estratégia socialista, no entanto, não pode prescindir da leitura concreta da realidade concreta, o que nos permite entender o quanto é importante, na atual conjuntura brasileira, impedir que a burguesia interdite a maior liderança popular do campo democrático e popular: Luiz Inácio Lula da Silva.

A interdição de Lula é a próxima fase de um golpe que sequestrou a soberania do voto popular, impôs uma agenda de retrocessos econômicos e sociais à classe trabalhadora e que pretende, desavergonhadamente, eliminar qualquer possibilidade de vitória eleitoral de representantes dos trabalhadores, por mais socialdemocratas ou nacionalistas que possam vir a ser, descartando para tanto a legalidade.

O avanço do golpe com a interdição de Lula significaria, muito provavelmente, o início de um longo processo de hegemonia das classes dominantes. Hegemonia que pode vir a ser exercida inclusive com a mudança do sistema político, com o recrudescimento da criminalização dos movimentos populares, com a cassação dos registros de partidos de esquerda e com a censura ideológica, o que dificultaria ainda mais qualquer tentativa de reação popular.

Enquanto a burguesia tenta definir os destinos do país em gabinetes e tribunais de exceção, temos que ter cada vez mais convicção de que o nosso lugar é nas marchas, paralisações, greves e ocupações, assim como nos centros de formação e nas redes de educação popular. Sempre é hora de sonhar, mas se faz imperativo organizar o sonho.

 

 

Bruno Costa
Bruno Costa Author
Bruno Costa é Graduado em Letras e Mestre em Estudos da Linguagem (UFRN). Milita na tendência petista Articulação de Esquerda.
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Bruno Costa
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Bruno Costa é Graduado em Letras e Mestre em Estudos da Linguagem (UFRN). Milita na tendência petista Articulação de Esquerda.
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