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59.080 brasileiros foram assassinados durante o ano de 2015. 3.320 homicídios foram identificados como sendo derivados de intervenções policiais. De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Mais da metade das vítimas de homicídio são jovens. Brasil ocupa o sétimo lugar no ranking dos países que mais matam jovens. Mais de 318 mil jovens foram assassinados no Brasil entre 2005 e 2015. Desemprego entre jovens brasileiros é o dobro da média mundial. Brasil tem a quarta maior população carcerária do planeta: 654.372 presos, dos quais metade são jovens e mais da metade são negros. 72,13% da população carcerária estudou no máximo até o ensino fundamental. Cerca de 40% dos presos são provisórios, ou seja, ainda não foram condenados e podem vir a ser inocentados ou a cumprir penas alternativas. A maioria das pessoas estão presas por crimes contra o patrimônio (46%) ou em virtude da lei de drogas (28%), que rotineiramente é interpretada de formas distintas, a depender da classe social de quem é flagrado com alguma quantidade de droga ilícita.

Em 2015, ao menos 358 policiais foram assassinados no Brasil. O Ministro da Justiça do governo ilegítimo afirmou que o governo estadual do Rio de Janeiro não controla a Polícia Militar e que o comando da corporação está associado ao crime organizado. 96 PMs são suspeitos de participar de um esquema de cobrança de propina a traficantes que rendia R$ 1 milhão por mês aos militares. Inquérito da Corregedoria da Polícia Militar revela que policiais comandam milícias, vendem armas e drogas para traficantes e praticam estupros. Policiais militares são presos em flagrante escoltando traficantes e drogas. Policiais militares e civis integram grupos de extermínio. Em qualquer recanto do Brasil é possível observar policiais e viaturas fazendo a segurança de estabelecimentos comerciais de modo ilegal.

Os dados e notícias acima aglutinados podem ser encontrados em inúmeras manchetes e/ou matérias jornalísticas, mas infelizmente não sensibilizam uma sociedade ainda atravessada pelo racismo e pela pobrefobia, exceto quando a violência ultrapassa as fronteiras das comunidades pobres e periféricas e se manifesta, assustadora como ela sempre é, nas ilhas de fantasia habitadas por gente fina e elegante. Em apenas 10 anos, o número de jovens assassinados no Brasil ultrapassa o número de civis mortos em decorrência das bombas lançadas pelos Estados Unidos contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, ao término da II Guerra Mundial. No entanto, o extermínio cotidiano de nossos jovens pobres e negros comove menos a sociedade brasileira do que o extermínio materializado em Hiroshima e Nagasaki há 72 anos atrás.
Diante da comoção seletiva e da hipocrisia é preciso afirmar e reafirmar: o Brasil está em guerra! E não se trata de uma guerra contra as drogas, que já se revelou fracassada, mas sim de uma guerra contra pobres e negros, contra as periferias, contra vidas consideradas descartáveis. Como diz a canção popularizada na voz da guerreira Elza Soares, a carne mais barata do mercado é a carne negra. Até quando?!

Até quando a esquerda vai terceirizar para os liberais o debate sobre a legalização das drogas? Até quando vamos deixar que alguns policiais militares de perfil progressista defendam sozinhos a desmilitarização e a reforma das polícias? Até quando vamos fingir que a política de encarceramento em massa e o desumano sistema prisional brasileiro contribuem para a redução da violência? Até quando vamos adiar debates necessários, que dialogam com o cotidiano da maioria da população brasileira?

Olhando para a história recente do nosso país, especialmente para os avanços promovidos pelos governos liderados pelo PT entre 2003 e 2014, constataremos que a redução da pobreza, a geração de emprego e renda, a ampliação dos investimentos em educação, os programas sociais e as ações afirmativas – nos limites de uma política de conciliação de classes – não foram capazes de conter o avanço da violência. Isto porque os direitos humanos não podem ser plenamente efetivados sem o fim da opressão de classe, que fortalece todas as demais formas de opressão.

Assim como as mulheres reivindicam que não há socialismo sem feminismo, integrando o debate de classe e gênero, as negras e os negros reivindicam que não há socialismo sem combate ao racismo, integrando o debate de classe e raça. Se a esquerda pretende de fato disputar os rumos do Brasil e transformar radicalmente a nossa sociedade, terá de enegrecer sua plataforma política. Em um país que realiza eleições de dois em dois anos, deixar qualquer debate para depois das eleições significa nunca fazer o debate.

Bruno Costa
Bruno Costa Author
Bruno Costa é Graduado em Letras e Mestre em Estudos da Linguagem (UFRN). Milita na tendência petista Articulação de Esquerda.
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Bruno Costa
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Bruno Costa é Graduado em Letras e Mestre em Estudos da Linguagem (UFRN). Milita na tendência petista Articulação de Esquerda.
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